Pode até parecer besteira… Não pra mim.
Como pode um simples par de calças ter tanto significado, tanta importância, tanta história na vida de alguém? Na minha tem.
Como pode um simples par de calças tamanho 40 (sim, 40!!!), da marca XOXO (sim, beijos e abraços!), feitas de um jeans molinho e que tenha custado apenas US$16, ter tido um funeral e lágrimas? As minhas tiveram.
Como pode um simples par de calças ter causado suspiros profundos de sua companheira humana na hora do adeus e uma foto para fazê-la viver para a eternidade? Cá está a foto para comprovar:
Eu explico…
Comprei esta calça em 2001. Em abril. Não a comprei simplesmente por conta de uma atitude consumista, por tê-la achado charmosa, bonita, diferente e barata. Foi uma atitude de desespero…
Não a tinha achado charmosa. Era grande demais. Eu, que costumava vestir entre os tamanhos 34 e 36, me vejo comprando um tamanho 40. E justinho, certinho… Na bunda No traseiro principalmente…
Não a tinha achado bonita… Mesmo porque era simplesmente um par normal de calças jeans…
Não era diferente tbm… Todos estes adornos que estão ao seu redor na foto acima, foram feitos 2 anos e meio depois…
Mas barata, ela foi. Paguei US$16 por ela. Eu ganhava US$140 por semana e estava poupando para fazer uma PUTA viagem pela costa inteira da Califórnia, Arizona e Nevada em agosto, do outro lado do mapa considerando onde eu me encontrava: Virgínia. Numa cidade chamada Arlington, exatamente a 15 minutos da capital americana, Washington D.C.
Nos três primeiros meses que morei nos EUA, em 2001, eu, inimaginavelmente, engordei nada mais nada menos do que 16kg… Isso mesmo! E de repente, simplesmente como acordar da noite pro dia, minhas roupas não serviam mais… E se instalara o caos…
Olhava no espelho e não me reconhecia… Aquele corpo não era o meu… Não que eu estivesse horrorosa, mas simplesmente não era quem eu costumava ser…
Como medida preventiva, tentei preservar minhas blusas e camisetas, que ficaram mais justinhas, mas ainda assim serviam (com algumas raras exceções que eu insisti em usar, mas que produziam aquele efeito “pancinha a la pochete” pulando para fora da calça e que me deixaram memórias divertidas em fotos sem noção…). Mas as calças… Ah… As calças… Estas não subiam a partir dos meus joelhos. Nem que eu deitasse no chão. Nem que eu rezasse e pedisse a ajuda de Deus… Nem que eu chorasse… Elas se recusavam, indignamente, a subir pelas minhas pernas… As calças (minha calça de glitter da Zapping, oh, que dor no coração…), os shorts, até uma bota de camurça… Todos se viraram contra mim. A bota se recusava a fechar! Bota infame!
Assim sendo, tive que tomar providências. Precisava de uma calça jeans pelo menos. E de alguns shorts… E, sim… de algumas calcinhas. Meu traseiro triplicou de tamanho…
Foi então que eu me dirigi até a Marshalls (http://www.marshallsonline.com/) mais próxima da minha casa (umas 5, 6 quadras) e lá comprei uma jardineira, um shorts, algumas calcinhas (nada brasileiras…) e… foi quando eu avistei uma arara de calças jeans on sale. E assim que bati os meus olhos na etiqueta da cuja-dita (XOXO), pensei: é esta! Experiemtei a primeira, não subiu… A segunda, não fechou. A terceira, que já peguei com lágrimas nos olhos, serviu. E foi esta a escolhida, que seguiu comigo pelas quadras de volta para casa, dentro da sacola, pelas ruas de Crystal City, adentrando a 21st St North, que era onde eu morava…
Tirei tudo da sacola e coloquei para lavar. Menos a calça. Naquela mesma noite, eu iria com as meninas para o Shark Club, em Bethesda/MD (hoje Union Jack’s) e como não teria condições de usar a calça de glitter da Zapping… (suspiro), foi a calça da XOXO mesmo. E beijos e abraços.
E foi a partir daquele dia que esta simples calça mudou minha vida, me seguiu em aventuras que marcaram a minha vida e me acompanhou até a volta para casa (após 13 meses de ausência), causando ainda, momentos dos quais jamais me esquecerei. Até o momento do adeus, após 10 anos de existência). Dolorido. Sofrido. Mas feliz e… eternizado.
E foi nesta noite no Shark Club que eu me diverti MUITO com as meninas (Márcia, Cris, Rika, Karina, Mariana…). Bebi vários ‘sex on the beach’ e ‘long island’ (sempre com as meninas comprando para mim, afinal, eu era “menor”). Resolvi me inscrever no concurso de karaokê e cantei CRIMINAL, da Fiona Apple, e DON´T SPEAK, do No Doubt, e não ganhei nada (óbvio…), mas não me abati, rs.
A Cris ganhou a disputa feminina (eu, ela e mais 2 moças) com ‘Because the Night’, do 10,000 Maniacs e recebeu US$50 que resolveu gastar com a gente, rs.
Com a calça XOXO fui paquerada, mesmo depois de ter cantado no karaokê, rs. E me senti (todo o trauma dos 16kg desapareceram naquela noite e nos dias e meses por vir…). Me senti e paquerei de volta. Até que escolhi o felizardo da noite e resolvi, com toda a minha cara-de-pau, álcool no sangue, e nova auto-estima de 16kg a mais, comprar um drink para ele. As meninas reprovaram, dizendo que americanos eram todos idiotas. Mas fui correspondida, ganhei uma música só pra mim (ele foi o vencedor da noite na disputa masculina com Plush, do Stone Temple Pilots), ganhei mais um ‘sex on the beach’ e ainda um convite para jantar no final de semana que se aproximava (era uma quarta-feira, pois as noites de karaokê no Shark só acontecia às quartas…).
A minha XOXO já começou a viver comigo os momentos mais marcantes da minha vida e mais – a viagem que me fez um ser humano totalmente diferente (para conseguir chegar aos fatos, situações e pessoas que estão ao meu redor hoje… Sou grata por isso…).
A minha XOXO, a partir daquele dia, me acompanhou a um dos melhores restaurantes da minha vida, o Fasika (http://www.fasikadc.com/), em várias caminhadas pelo Zoo de D.C., pelas ruas de Crystal City, de Georgetown… Por Arlington e Bethesda… Mas o melhor ainda estava por vir…
XOXO, justinha e confortável como tinha que ser, foi companheira inseparável num voo de Washington à Califórnia e do aeroporto californiano a uma lista infindável de lugares que me deixaram loucamente encantada e inspirada…
XOXO andou comigo pelas ruas de San Francisco (eu e ela nos apaixonamos pelo Castro…), andou mais de 5 mil kilômetros entre Califórnia, Nevada e Arizona (andou pelas ruas de Las Vegas, conheceu as imagens abençoadas do Grand Canyon, andou pela Sunset Boulevard e calçada da fama, foi à Salsalito e voltou, atravessou a GOLDEN GATE BRIDGE, de ponta a ponta, à pé… Andou pelas calçadas do Fisherman’s Wharf e posou para fotos bizarrinhas em Calico (ghost town), foi para Santa Barbara e Santa Monica…
Tudo isso ainda sem falar que foi também para o Canadá e visitou Niagara Falls e conheceu um dos restaurantes mais legais – Skylon Tower. XOXO também foi companheira de Boston e suas baladas sensacionais…
XOXO foi para a Flórida e conheceu os parques temáticos da Disney e, junto de sua “dona”, sentiu-se criança outra vez. E também foi para Kissimee, Jacksonville, Tampa…
XOXO esteve presente no show do Aerosmith, no Nissan Pavillion, em Bristow, VA. E viu Steven Tyler passar do seu ladinho… XOXO acabou por se transformar num objeto quase personificado de sua dona e devota… XOXO sempre foi mais do que uma simples calça tamanho 40 que custou US$16.
Depois de toda uma jornada de mais de 300 dias, XOXO sobrevoou os EUA, o México… chegou em território nacional e ainda estava determinada a desbravar terras antes nunca visitadas por ela. E assim foi… E apesar das “pequenas” mudanças, ela nunca deixaria de ser quem sempre foi, ou o que sempre foi: a XOXO mais amada do mundo. A mais culta. A mais viajada. A mais extrovertida e descolada das calças que já vestiram a metade de baixo do corpo de uma mulher…
XOXO no Brasil causou comoções. Primeiro porque era tamanho 40, de um corpo número 40, mas que sempre fora 34 ou 36. Segundo porque era XOXO. Terceiro porque a sua devota dona não a tirava jamais…
Após 3 meses em solos brasileiros, XOXO se viu mais solta, quase caindo. Isso conteceu porque o corpo tamanho 40 voltou a ser 34/36. Mas esse “pequeno” detalhe não abalou ninguém. E XOXO se fez notável, mais uma vez, por ser vestida diferente de qualquer mente criativa… Sua dona se superara.
XOXO desta vez visitou o Rio de Janeiro, os litorais paulistas, cidades do interior de São Paulo, Botucatu, São José, Campinas, Mairiporã… Ela foi até Catalão, Goiás! Depois deu mais uma subidinha e parou no Rio Grande do Norte, na Paraíba e em Pernambuco. Sem falar nas ruas da cosmopolita São Paulo.
Depois de mais alguns meses, quase um ano, XOXO resolveu, junto com sua devota dona, radicalizar. E do singelo azul jeans claro, permitiu que sua “pele” fosse tatuada. E eis que num esforço de compilação dos pensamentos mais ávidos de sua dona, fora criada a maior obra de arte XOXOal by girli.E*: a foto que está lá pra cima…
“Ando tão à flor da pele, que qualquer beijo de novela me faz chorar, ando tão à flor da pele que seu olhar, flor na janela, me faz morrer…”
“stars…”
“Ms. Butterfly (1996)… “
“Poor is the man whose pleasure depens on the permission of another…”
“Ich verstehe Nichts… ::
“BRASIL”
“girli.E*”
“m.”
“Eli”
“feminino”
“O+”
“Organ Donor/Doadora de Órgãos”
“LOVE”
E após todas as tatuagens em sua pele de tecido já desgastado, XOXO continuou sua jornada, mais confiante do que nunca. Mais madura do que nunca. E mais atraente do que nunca (tanto que foram criadas cópias autorizadas por girli.E*…)! Até para a universidade XOXO foi. E daí conheceu Jundiaí, Bragança Paulista, Matão… E também o amor verdadeiro, que duraria por toda a sua vida – assim como por toda a vida de sua dona… Amor Tial. Este é o nome. O mais puro. O mais verdadeiro. O que, assim como XOXO, desbravou territórios e enfrentou barreiras. Mas venceu.
XOXO se formou, foi promovida, começou a trabalhar em 4 lugares diferentes ao mesmo tempo. Mas sempre firme e forte. Mas assim como um ser canino, XOXO tinha uma expectativa de vida relativamente curta… E foi envelhecendo, desbotando, ficando cada vez mais frágil e delicada. Até chegar o seu fim, com 10 anos de idade. Mas um fim com glória. Exatamente coerente com a sua vida de aventuras…
XOXO nos deixou na saudade após uma festa de aniversário nos Planetas, em que entrou na piscina de bolinhas cósmicas e lá se desintegrou. Ficou guardada em seu caixão domiciliar até a sua devota dona se casar. E foi aí que elas, juntas, tiveram a ideia de eternizar XOXO através das fotografias e poder deixá-la descansar em paz.
R.I.P, minha eterna companheira. Sentirei MUITA saudade.
Com amor,
sua devota.











“Plush” é minha canção favorita do que nunca, porque os motivos que você falou.